"Há certas frases que se iluminam pelo opaco."

(Manoel de Barros)

sábado, 27 de agosto de 2011

Quadrilha


      "João amava Teresa que amava Raimundo
      Que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili 
      Que não amava ninguém. 
      João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, 
      Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, 
      Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes 
      Que não tinha entrado na história."


- Muito obrigada, Pedro. E então, turma, alguma dúvida, algum comentário a respeito do texto?
- Professora!
- Sim, Tatiana...
- A Lili não amava NINGUÉM???
- Bom, é o que diz o poema.
- Então como é que ela casou com o J. Pinto Fernandes?
- Bom, provavelmente eles se conheceram depois, ela passou a amá-lo, e eles se casaram... Mais alguma coisa?
- Mas, professora! Por que ela não se casou com o Joaquim?
- Como é, Tati?
- É, ué! Se o Joaquim já amava a Lili antes dela conhecer o J. Pinto Fernandes, ela devia ter casado com ele logo! E se ela não conhecesse o outro depois? Ia ficar sem casar?

- É que nenhuma mulher ia querer casar com ele, porque o nome dele é Pinto!!
- Silêncio, silêncio, turma! Felipe, mais uma brincadeira durante a aula, e você vai ficar sem recreio hoje. Vamos, silêncio, chega de risadas.
- Professora! Ô professora!
- Diga, Thiago.
- Como é que faz pra não pegar desastre?
- Hã???
- É, eu não quero morrer de desastre!
- Nããão, Thiago, não precisa se preocupar com isso! Desastre não é doença, que se pega. Quando a gente diz que Fulano morreu de desastre, quer dizer que a morte dele foi de um jeito muito trágico, muito grave. Algum acidente, ou coisa assim... Entendeu?
- Entendi, professora. Deus me livre morrer de desastre.
- É, Deus nos livre. Bom, então agora peguem os... Pois não, Mariana, pode falar.
- Professora, eu não entendi uma coisa. Por que tá tudo trocado?
- Trocado?? Como assim, trocado?
- Eu sei que quando uma pessoa ama a outra, a outra pessoa tem que amar a pessoa, pra pessoa poder casar com a outra...
- Peraí, Mariana. De quantas pessoas você tá falando?
- De duas, professora! Pra elas casarem, uma tem que amar a outra. Por isso que ninguém casa no final, porque tá tudo trocado!
- Só casa a que não gostava de ninguém...
- Calma meninas, vamos com calma. Tati, já falamos disso, que talvez ela amasse o marido que conheceu depois. E Mariana, acho que a intenção do autor não foi deixar tudo "trocado", mas mostrar como às vezes podemos amar alguém que não nos ama.
- Ah, não, professora. Isso tá errado. Outro dia, eu tava gostando do Mateus, do sexto ano, mas quando descobri que ele gosta da Fernandinha, deixei de gostar dele na mesma hora!
- Ele gosta de mim????
- Tá namorando!! Tá namorando!!
- Quieto, Felipe! Fernanda, sente-se! Continuando... Muitas vezes, meninas, pode acontecer de uma pessoa gostar da outra, mas não ter seu sentimento correspondido. E o que o autor quer mostrar é que, quando isso acontece, não é o fim do mundo. Ainda se pode viajar, casar-se com outra pessoa...
- Suicidar-se...
- Não, não, suicidar-se não! Pelo amor de Deus, crianças!
- Eu ainda acho que o moço tinha que destrocar isso!
- Quem tinha que destrocar, Mariana?
- O autor, o autor! Desculpa, professora!
- Ah, bom. Enfim, se o autor "destrocasse tudo" como você diz, o poema ia perder o sentido...
- Mas ia ficar todo mundo feliz. Não dá pra ser feliz com essa confusão toda, de amar um e desamar outro, e casar com outro que ama depois, e amar e morrer de desastre...

    A professora olha para o alto, com uma ligeira impaciência. Não pelos questionamentos, nem pela inquietação da turma. O que a comove é a afirmação de Mariana, "não dá pra ser feliz com essa confusão toda". Pensa na sua confusão. Sente-se um pouco Lili, que sem amar ninguém casou-se com J. Pinto Fernandes, apenas pra não ficar para tia como Maria. Pensa no Joaquim que passou por sua vida. Lembra de seu rosto jovem, suspira, me amava mas não se suicidou, eu acho. Tomara que não. Será que eu devia ter dado uma chance para ele? Sua cabeça girava, mais rápida que as perguntas dos alunos. Seria feliz se estivesse com Joaquim, ao invés de J. Pinto Fernandes? Provavelmente. Como ser feliz, se o nome dele é Pinto?
     O sino toca, é hora do intervalo. As crianças se levantam desordeiras, e ela não os impede. Até mesmo Felipe, indisciplinado e brincalhão, ganha o direito de gozar de seu momento de liberdade. A professora permanece sentada, observa-os. Em meio ao burburinho característico dessa hora, distingue uma frase com a qual admitiu concordar inteiramente, e cujo autor ela sabia bem quem era:

- Deus me livre morrer de desastre!

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