"Há certas frases que se iluminam pelo opaco."

(Manoel de Barros)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Cabide Amarrado Num Barbante

Havia um menino, e havia um cabide amarrado num barbante. Era uma noite particularmente fria, e numa calçada qualquer igual a tantas outras calçadas, o menino fazia de dois objetos cotidianos sua distração. À 1ª vista me pareceu algo como um cabide de plástico, amarrado na ponta de um cordão com cerca de um metro de comprimento, que ele balançava para lá e para cá, pra lá e pra cá como um pêndulo. Isso foi o que eu pensei ao ver a cena. Afinal, que brinquedo era aquele?

Talvez fosse uma âncora, feita de ferro, dessas de navios que só mesmo um gigante dotado de força extrema, como o menino, poderia içar sozinho. Quem sabe, ao invés de âncora, não seria um navio inteiro? À deriva, prestes a naufragar, chacoalhando sobre as ondas que o menino, senhor das tempestades, é capaz de provocar.

Talvez um cachorro, preso numa coleira, passeando com seu dono. Andando felizes pelas calçadas, que eram sempre tão iguais.
Podia ser um cavalo, uma bola, um foguete, uma espada... Podia ser qualquer coisa que o menino quisesse. Aquele mundo o pertencia, era só seu e tão seu.
Ai de quem o tirasse de lá.

Eu quis ir até lá, e perguntar a ele o que fazia, afinal. O que ele via, com o que estava brincando. Mas segui adiante. Seguiram, a minha vida e a dele, ainda seguem, e talvez nunca mais se cruzem novamente. Jamais saberei que diabos o menino pensava, muito menos o que sentia. Só tenho uma certeza: independente de qual fosse a resposta, naquele momento ele era muito mais feliz que eu, que só enxergava um cabide amarrado num barbante.

Um comentário:

caio disse...

Não era pra você ter me contado isso antes. Eu realmente queria ler esse texto sem saber do que se tratava.
Aah... Muda esse título! Pra não acontecer com qualquer outro que venha a ler, o que aconteceu comigo.
Acho que vai ficar melhor se tu só falar que é um cabide e um barbante no final.