"Há certas frases que se iluminam pelo opaco."

(Manoel de Barros)

domingo, 26 de junho de 2011

Porcelana

      Sempre paciente, sempre inteligente, sempre sorridente. Ela só acordava em manhãs de sol, e dava bom dia aos passarinhos. Sua pele era cadavericamente branca, seu cabelo longo e artificialmente loiro. Uma franja reta cobria sua testa e realçava o fino nariz e o batom vermelho nos lábios.

      Era a primeira aluna em todas as classes que frequentava. Aplicada, sua maior diversão era ser sempre melhor que os colegas, para que pudesse olhá-los por cima do nariz irritante, com um princípio de sorriso estampado no rosto de princesa.
     
     Fluente em inglês, francês e italiano, dançava balé desde criança. Dava orgulho a seus pais, quando estes lembravam que ele existia. Suas roupas cheiravam a Luís XIV, usava pérolas e lia autoajuda apenas para rir dos problemas que não tinha.
    
    Um dia, alguém aparentemente se irritou com tanta perfeição. Ela foi encontrada morta num banheiro escuro, com um corte na altura do pescoço. Alguém falou que o sangue havia manchado seu cabelo loiro, e fazia sua pele parecer ainda mais branca. Uma pena, ela era tão bonita.

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